sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Você sabia que Harry Truman esteve no Brasil ?


O SR. HARRY S. TRUMAN (Presidente da República dos Estados Unidos da América do Norte) – Presidente Dutra, Senhor Presidente do Congresso, Senadores e Deputados.
Sinto-me profundamente grato pelo convite que me foi feito para comparecer perante o Congresso desta grande nação, cuja história está tão intimamente ligada à dos Estados Unidos.
Na qualidade de quem chegou à uma posição executiva vindo das câmaras legislativas, aprecio tanto mais a honra que me foi conferida. O legislativo de um país democrático se confunde com o seu próprio povo. E assim deve ser para que produza frutos fecundos a instituição do auto governo, ciente de suas responsabilidades. A sua história de governos por homens livres, é um justo motivo de orgulho para o Brasil. Eu saúdo o Congresso da grande Nação Brasileira e apresento meus melhores votos ao nobre povo que ele simboliza.
Os vínculos que unem os Estados Unidos ao Brasil foram sempre fortes. Não é exagero denominar as nossas relações de “amizade secular”. A vossa declaração de independência foi curta mas tão empolgante quanto a nossa. O Grito do Ipiranga, naquele radioso 7 de setembro de 1822, proclamou ao mundo que havia chegado o momento em que o Brasil seria governado pelo seu próprio povo e para o seu bem. Rejubilo-me ao lembrar que a primeira nação do mundo a reconhecer o novo estado independente foram os Estados Unidos. Não nos perturbou a circunstância de que havia assumido a forma de uma monarquia uma vez que seus alicérces eram democráticos. A Constituição que dois anos mais tarde foi promulgada, era a condensação dos ideais de um governo livre e não os de uma monarquia absoluta.
Em muitos aspectos a história do Brasil se assemelha à dos Estados Unidos. Ambas forjaram civilizações em terras inóspitas. Ambas foram favorecidas com grandes recursos naturais e ambas agigantadas pelos seus povos inspirados pelo preponderante motivo de liberdade.
Se regozijo-me pelo fato dos Estados Unidos terem sido o primeiro país a reconhecer o Brasil como nova nação, regozijo-me igualmente por ter sido aos Estados Unidos que o Brasil pediu seu apoio na sua luta pela independência. A aliança que o Brasil nos propôs foi uma incontestável prova de confiança. Foi o início da nossa amizade histórica, que descrevi como “amizade secular”.
O longo reinado do grande D. Pedro II colocou o Brasil entre as primeiras nações democráticas. Os americanos de hoje conhecem-no bem, pois vós haveis estampado sua nobre efígie num selo postal, que chega aos Estados Unidos em cada mala do correio brasileiro. Lembramo-nos com satisfação que foi ele o primeiro monarca a visitar os Estados Unidos, por ocasião da Exposição da Filadélfia em 1876, a qual celebrava o centenário de nossa independência.
Mais tarde, em 1889, quando o Brasil chegou à conclusão de que a forma republicana condensava mais adequadamente suas aspirações nacionais, o Congresso dos Estados Unidos da América aprovou uma resolução conjunta congratulando ao país que adotava a nova forma de governo. É interessante observar também que o Brasil baseou sua Constituição na do sistema federal dos Estados Unidos.
Por que são tão fortes os laços que nos unem? A distância que separa os nossos países é grande e, até a bem pouco tempo, eram vagarosas e difíceis as comunicações. Mas não é somente a proximidade física que nos torna amigos e vizinhos. E antes a circunstância de possuirmos interesses comuns, princípios comuns e ideais comuns. (Palmas).
Encaramos o Estado como um instrumento do povo para a obtenção do bem estar geral. Temos as mesmas convicções quanto aos direitos fundamentais do homem. Temos respeito pela dignidade humana. Encaramos as relações internacionais como sendo regidas pelas mesmas normas de conduta moral pela qual são regidos os indivíduos.
Em resumo, as declarações de 7 de setembro e de 4 julho, demonstram que acatamos idêntico conceito de liberdade e democracia. (Palmas).
Rui Barbosa, um de vossos grandes estadistas (Palmas) de nome imperecível, afirmou certa vez que as nações do mundo constituíam uma só sociedade e que os princípios em que se alicerçam a estabilidade e a justiça dentro de cada Estado, deveriam aplicar-se igualmente às nações. E julgava que, para manter entre as mesmas relações civilizadas, era esta a única esperança. A idéia não era nova. Ela fazia parte da herança do Brasil, como é da herança de todas as outras nações cristãs. Foi a eloqüência de Rui Barbosa porém, que a converteu num princípio vivo da política externa do Brasil. Sua afirmação de que entre o bem e o mal não pode haver neutralidade, permanecerá para sempre nas tradições morais do vosso país.
Numa recente troca de correspondência com o Papa Pio XII, afirmei que desejaria fazer tudo dentro de minhas possibilidades para apoiar e contribuir para a conjugação de todas as forças que lutam em prol de um mundo moral. Creio que, ao fazer aquela declaração, exprimia não só o pensamento de meu próprio país, como o do Brasil também. (Palmas).
Os Estados Unidos tiveram sempre a felicidade de possuir amigos brasileiros, conselheiros perspicazes em toda a ocasião em que uma ação conjunta era necessária. O nome do embaixador Joaquim Nabuco (Palmas) que atuou dentro do espírito do vosso grande Chanceler Rio Branco (Palmas) estará para sempre associado à manutenção, dentro das devidas proporções, da Doutrina de Monroe.
E ele é somente um, dentre uma extensa lista de vossos patrícios, que tão eficazmente têm contribuído para a compreensão mútua existente entre nós. No decorrer dos anos aprendemos que precisamente por estarmos de completo acordo sobre os princípios fundamentais de justiça e eqüidade, podemos encarar nosso problemas comuns com a segurança de que haveremos de concordar sobre os meios e medidas para resolvê-los.
A recente guerra deu-nos outra vez mais uma prova cabal da nossa amizade. A compreensão e confiança mútua que existe, revelou-se quando, nos princípios do conflito, o vosso governo atendeu prontamente a nossa necessidade da bases aéreas e de material estratégico. Quando nossos dois países foram atacados, nossos povos lutaram lado a lado até a vitória final.
A bravura de vossos combatentes contra um inimigo experimentado e engenhoso, cimentou nossa intimidade e nos proporcionou mais um motivo de experimentar um profundo sentimento de orgulho em nossa amizade.
A lembrança daqueles dias de lutas e de sacrifícios comuns, constituirá para sempre um vínculo sagrado entre nós.
Agora porém, defrentamo-nos com os problemas da paz. Eles são mais difíceis de que nós poderíamos ter previsto. Eles exigirão o máximo de colaboração entre nós. Contudo, tenho a plena certeza de que, com mútua boa vontade e tolerância, poderemos resolvê-los. A condição fundamental é que mantenhamos nosso ideais comuns e os
 nossos princípios comuns de moralidade e justiça. Com estes princípios nos orientando, poderemos prosseguir juntos e não permitiremos que nenhuma divergência mesquinha nos desvie dos nossos objetivos comuns.
Encontramo-nos em um ponto em que o Brasil e os Estados Unidos devem prosseguir cooperando com as nações irmãs do Hemisfério Ocidental no desenvolvimento de uma vigorosa e harmoniosa força para o bem da humanidade. Uma das grandes lições que aprendemos nas últimas gerações é de que não vivemos isolados. Destruição, sofrimento e confusão em outras partes do mundo, se nos defrontam agora, como nunca dantes. Nossas nações fizeram grandes sacrifícios no decorrer da guerra, mas fomos poupados pela destruição inclemente e pelo deslocamento das populações, sofridas por muitas nações. Estou certo de que o Brasil e os Estados Unidos manter-se-ão fiéis ao sério compromisso assumido, do qual dependem as vidas e a liberdade de tantas milhões de criaturas desiludidas e desencorajadas.
O povo dos Estados Unidos acompanhou com vivo interesse e profunda esperança o desenrolar da Conferência Inter-Americana que se encerrou recentemente. Os ótimos resultados obtidos nos trouxeram imensa satisfação. Nós, os deste hemisfério, demonstramos ao mundo que homens de pensamento podem renunciar a seus preconceitos e suas aspirações individuais, na conclusão de um acordo que proporcionará um grande benefício à humanidade.
A Conferência do Rio de Janeiro entrará para a história como uma etapa importantíssima na nossa evolução pela proscrição da guerra nas relações internacionais e pelo estabelecimento do reinado da lei e da ordem. (Palmas).
Ouve-se algures expressões de desilusão pelos resultados obtidos até agora pelas Nações Unidas. Isto porém, não deve arrefecer nossos esforços para a construção de uma organização, da qual o mundo tem necessidade tão premente. Ademais, não devemos nos esquecer de que a função das Nações Unidas não era resolver os problemas criados pela guerra e sim proporcionar os meios para a manutenção da paz internacional, depois de soluções justas terem sido alcançadas.
A Organização das Nações Unidas não nasceu já amadurecida pelo simples ato da assinatura da Carta em São Francisco. Para chegarmos à nossa meta, são imprescindíveis força de vontade, labor constante e infinita paciência.
As Nações Unidas não representam uma medida provisória. É uma associação 4
permanente – uma associação entre os povos da terra, para a paz e o bem estar comuns. (Palmas).
Os obstáculos que encontramos nesta primeira fase da vida das Nações Unidas não nos desanimaram. Muito pelo contrário, fortaleceram o nosso propósito de torná-la uma entidade eficaz.
Os Estados Unidos comprometeram-se a apoiar as Nações com os recursos de que dispõe. (Palmas).
O Brasil e os Estados Unidos caminharam lado a lado no desenvolvimento de conceitos progressivos da maneira democrática de viver. Provamos a nós mesmos que a política firmemente baseada na dignidade do homem e da sua posse de certos direitos inalienáveis, nos inspira a maiores esforços e nos conduz a resultados mais elevados. Deixarei o Brasil com a convicção de que aqui existe um povo dedicado aos ideais estáveis, sob os quais meus conterrâneos e eu fomos criados.
É para mim difícil dizer-vos que profundamente aprecio a maravilhosa recepção no vosso país. (Palmas). Porque este Congresso se compõe de representantes eleitos pelo povo, e porque vós, como resultado de processos democráticos, estais tão intimamente identificado com o povo; desejo, por vosso intermédio, estender a todo o povo brasileiro os meus mais profundos agradecimentos. (Palmas).
Ao passar através de vossa linda capital, no dia da minha chegada, as carinhosas expressões de amizade estampadas nas fisionomias de centenas de milhares de brasileiros, sensibilizaram-me profundamente e deixaram-me uma impressão que jamais esquecerei.
Quando chegar o momento de minha partida, levarei em meu coração (Palmas) uma grande fé na amizade duradoura entre os nosso dois países e na bondade e generosidade do povo brasileiro. (Palmas).
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A Doutrina Truman

1949, o presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, pronuncia o discurso de posse do segundo mandato na Casa Branca. Nesta ocasião, apontou a grande pobreza que afetava a metade da humanidade.

No Ponto Quatro de seu discurso, declarou: “Faz-se necessário lançar um novo programa que seja audacioso e que ponha as vantagens de nosso avanço científico e de nosso progresso industrial a serviço da melhoria e do crescimento das regiões subdesenvolvidas. Mais da metade das pessoas em todo o mundo vive em condições vizinhas à da miséria. Não têm muito o que comer. São vítimas de enfermidades. Sua pobreza constitui uma desvantagem e uma ameaça, tanto para elas quanto para as regiões mais prósperas.”

Era a primeira vez que se empregava a expressão “subdesenvolvido” a propósito de um país que ainda não tivesse atingido o estágio industrial. Fez florescer, por sua vez, a expressão “terceiro mundo”, inventada pouco depois, em 1952, pelo demógrafo Alfred Sauvy.

O discurso de Truman desemboca em junho de 1950 na assinatura do Act for International Development (AID, Programa para o Desenvolvimento Internacional).

Para os norte-americanos e mais amplamente para os ocidentais, o combate contra o “subdesenvolvimento” seria o substituto da “missão civilizadora” do tempo das colônias como objetivo messiânico. No meio século que se seguiu se tornaria corriqueiro não mais levar em conta as nações e os povos em sua diversidade cultural, social e humana, mas somente e sim em catalogá-los como “país subdesenvolvido” e “país desenvolvido” em função do Produto Interno Bruto por habitante (PIB/habitante). Era o triunfo da econometria, uma visão contábil e matemática da economia.

 

A tomada de consciência do “subdesenvolvimento” levou os países ricos e poderosos, geralmente as potências ocidentais, a desenvolver redes de assistência financeira e de cooperação técnica com os países pobres. Ao auxílio público se acrescentou nos anos 1990, a ajuda caritativa das “organizações não governamentais”. A ausência de controle e a corrupção alteraram consideravelmente a eficácia desta ajuda privada. Quanto à assistência pública, ela vinha cercada de tantas condições e restrições que mais subjugavam que ajudavam. Na alvorada do século 21, a ajuda internacional aparecia como um fator de agravamento do subdesenvolvimento e da miséria.

A avaliação econométrica do subdesenvolvimento, levando em conta apenas o fator PIB/habitante se revelou uma ilusão de óptica, uma verdadeira aparência enganosa.

Regimes ditatoriais ou medievais enriqueciam com os ingressos de algumas companhias petrolíferas ou mineiras, como Arábia Saudita, Gabão, Argélia ou Nigéria figuravam como países ricos enquanto as condições de vida da maior parte dos habitantes em termos de mortalidade infantil, expectativa de vida e alfabetização se mostravam medíocres. Em contrapartida, países ou regiões muito pobres, se se levar em consideração a proporção PIB/habitante, como, por exemplo, o estado de Kerala, na Índia, asseguram aos seus habitantes um quadro de vida relativamente sadio e equilibrado em comparação com seus vizinhos.

Enfim, países cuja situação parecia desesperador em meados do século 20 saem a passos de sete léguas do “subdesenvolvimento” e vão ingressando no clube dos países ricos. É o caso de regiões banhadas pelo Mar da China e dos países emergentes pertencentes à sigla BRICS. Em sentido contrário, a África subsaariana, que parecia destinada a um rápido desenvolvimento nos anos 1960 devido aos seus imensos recursos naturais do solo e subsolo, penam para se libertar de seus demônios.

Nos anos 1990, as instituições internacionais lançaram novos indicadores para melhor levar em conta todas as heterogeneidades: o “desenvolvimento humano” ou IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Leva em consideração o PIB/habitante mas também a taxa de alfabetização e a mortalidade infantil, esta por sua vez representativa do nível das condições sanitárias do país e do grau de emancipação das mulheres.

sábado, 1 de fevereiro de 2020